MARCO UBALDO E BOB QUEIROZ

A arte de Marco Ubaldo anda sobre rodas. Literalmente. O cara personaliza decks de skate que acompanham seus donos em manobras por vários lugares do mundo. Já a arte de Bob Queiroz é eterna. O tatuador desenvolve suas técnicas sobre a pele humana. Agora, a dupla uniu forças e trabalhou junto na customização do Rolo para a MCD. Veja o que se passa na cabeça desses artistas que transmitem suas idéias agora para o tecido.
O Rolo possui 7 metros de comprimento por 1,6 metros de altura. Este foi o maior suporte utilizado por vocês?
Bob Queiroz: Essa foi a maior superfície na qual eu já trabalhei. O máximo que já tinha feito antes foi pintar um muro, mais foi algo mais de brincadeira com uns amigos, nada levado muito a serio.
Marco Ubaldo: Eu já pintei um painel de 10 metros por 3 metros de altura.
E qual a diferença entre desenhar em tecidos e os outros trabalhos que vocês estão acostumados a realizar?
Bob Queiroz: Na tatuagem, a gente fica um pouco mais limitado. Além da limitação do local da tattoo no corpo, também temos a limitação dos clientes. Geralmente quem tatua já tem uma pré-definição do que quer e tenho que trabalhar dentro disso para fazer da melhor forma possível o que o cliente pensou. Nas estampas o trabalho é mais livre, mais solto. No Rolo, o espaço é bem legal, e dá pra desenvolver mais o lado artístico. O maior desafio foi o tecido que é algo totalmente oposto da tattoo. O tecido tem uma textura própria onde a tinta adere diferente. No começo, foi um desafio. Mas isso que me motiva, pois onde eu puder desenvolver a minha arte, ali estarei.
Marco Ubaldo: No meu trabalho, o que muda é o ponto de vista e o objetivo final de cada arte. Ao desenhar decks de skate, a arte é feita em cima da personalidade do skatista. Quando alguém me procura para fazer um modelo, geralmente quer um ponto de vista bem singular de seu universo, onde o traço vai ser uma forma de expressar o que ele esta querendo dizer naquele momento e o que ele está querendo fazer da vida, sem relação com tendências ou moda, mas uma relação consigo mesmo. É quase uma biografia. Nas camisetas, os desenhos já são criados com um objetivo final e toda a arte (de uma forma direta ou indireta) tem que se comunicar uma com a outra, que por sua vez vai se comunicar com todo o restante dos produtos da coleção, em que não é apenas um desenho que precisa ser bonito, mas o todo. Dessa forma, o trabalho de pesquisa se torna indispensável. Tecido ou painel, a arte é mais livre, o que rege é o momento, é o que você esta a fim de falar através de seu traço naquele momento.
Quais as técnicas artísticas utilizadas para personalizar O Rolo de tecido?
Bob Queiroz: No rolo utilizamos algumas técnicas diferentes. Spray, canetão... Mas o que predominou pra mim foi o pincel, que é mais similar ao que estou habituado, que é tatuar. Então usei o pincel na maior parte do tempo...
Marco Ubaldo: Caneta Unipaint, tinta acrílica e spray. Todos na cor preta
Vocês são antenados na moda?
Bob Queiroz: Sou uma pessoa que não se atualiza muito na moda. Não entendo nada de tendências, estações. Mas ao longo dos anos fui apurando o estilo de me vestir, inconscientemente. A forma que me visto reflete meu estilo de vida. Às vezes eu ando na moda e nem sei!
Marco Ubaldo: Por trabalhar no mercado e desenhar nas coleções da MCD, diagramar os catálogos, lookbook, etc, acabo tendo o acesso às informações da moda.
Qual a sensação de ver as pessoas vestindo uma camiseta cuja estampa foi criada por vocês?
Bob Queiroz: Lembro-me da primeira vez em que tatuei um desenho meu. É algo inexplicável, impagável! A satisfação é imensa e é isso que me motiva a estar sempre me atualizando e estudando. Fazer estampas era algo que estava nos meus projetos, e acho que quando você gosta de arte, você não se limita a nada, você acaba ficando insaciável, você quer sempre mais dessa satisfação, em todas as formas e em todas as superfícies. Muitas vezes eu fico mais feliz quando vejo um trabalho meu pronto, do que quando recebo por ele.
Marco Ubaldo: É sempre bom ver o meu trabalho nas ruas, não importa o suporte, pode ser nas camisetas, nos decks de skate, vitrines ou material impresso. Mas as camisetas dão um certo prazer diferente. Quando alguém compra uma camiseta, ele esta se identificando com a arte estampada, é uma forma de afirmar o que ele acredita naquele momento. E é bom saber que você tem como se comunicar com as pessoas dessa forma.
De onde vem a inspiração artística?
Bob Queiroz: Em toda historia da arte, o que eu mais gosto e admiro é a arte religiosa. A arte evoluiu muito, mas pelo menos para mim nada supera o que já foi feito por Da Vinci e Michelangelo, por exemplo. Mas a maior parte da minha inspiração vem da minha crença em Deus e do meu Cristianismo. Não faço nada além de querer imitar tudo que Deus já criou. Seria prepotência minha dizer que algo vem de mim, tudo provém dele.
Marco Ubaldo: Gosto das ruas e de experiência reais. As informações estão ai, espalhadas pelos cantos da cidade, nos muros, nas ruas e por diversos lugares. Acho incrível o que se pode ver no rosto das pessoas. A inspiração vem de minhas experiências reais do dia-a-dia.
Quando vocês perceberam que tinham um dom?
Bob Queiroz: Desde que me lembro, sempre desenhei e com o tempo fui direcionando pra onde gostaria. Na minha infância, desenhava gibis infantis, depois passei para HQs até conhecer arte de verdade. Aí fui trilhando pra tatuagem e de lá pra cá não parei mais. Mas não acredito muito em dom, acredito mais em persistência. Se você se esforça você aprende, arte é desse jeito o grande lance é estudar incessantemente.
Marco Ubaldo: Na adolescência, ficava desenhando nos cadernos, e em tudo que eu via que cabia um desenho, eu estava lá, rabiscando tudo aquilo que eu via e sentia andando de skate.
Quem foi a primeira pessoa a reconhecer a sua arte e dizer que valia a pena você mostrar o seu trabalho para o mundo?
Bob Queiroz: Com certeza foi a minha mãe. É aquele negocio de mãe que tem orgulho do que o filho faz. Eu fazia rabisco e ela achava lindo e contava pra todo mundo. Acho que isso ficou enraizado dentro de mim e hoje em dia vejo que ela não é nem mais parâmetro, pois mãe gosta de tudo. Mas ela sempre me motivou desde desenhar até tatuar. Com certeza sem ela não faria nada disso e estaria bem insatisfeito profissionalmente.
Marco Ubaldo: Foi um amigo que de tanto ver os meus desenhos espalhados pelo bairro, um belo dia ele me indicou para um dono de uma estamparia na galeria do rock. Foi a minha chance. Abracei a idéia e fui atrás, batendo de porta em porta, ao passar do tempo cada vez mais tinha desenhos meus espalhados em varias marcas do segmento de surf e skate. Hoje o meu trabalho tem uma linguagem bem particular, já com uma maturidade, incorporei outras formas de fazer e construir minha arte.

